Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

UM TUGA NO MUNDO

  1. Ligo a televisão quando chego ao quarto de hotel. É uma rotina que me ajuda a relaxar e a enganar o espírito. Desta forma, parece-me sempre que estou em casa. Podem mudar os satélites, serem diferentes a ementa do room-service, a cor das toalhas ou o caminho adivinhado dos interruptores, que se mantém ainda assim inalterada essa sensação de, após tantos quilómetros, ser acolhido por aquele ecrã reverberante que me trás um pouco da memória do meu próprio sofá. Por vezes repetem-se canais: lá estão os eternos SKY e CNN, as irregulares MTV’s e MCM, o História, a Al-Jazeera e, claro, quantas vezes em pleno zapping lá para os lados do 371, 372, a RTPi e a SIC Internacional. Finalmente, no meio do Burundi News e o Canal de Pesca, um cheirinho do meu país. Não há português que não se comova ao ouvir falar a sua língua após longos períodos de tempo exposto às intempéries do inglês, alemão ou espanhol. Entre amendoins enlatados e Fantas, que a muito custo engulo a fingir que é Sumol, dou por mim numa de saudade e nostalgia. Logo eu, para quem o fado se resume a Carlos do Carmo e Camané tão parecidos são com Lou Reed, Dylan e Tom Waits . São três da manhã aqui em Hong-Kong. Os néons regorgitam convites a uma incursão pela noite sino-europeia, pelos mistérios de becos disfarçados de avenidas do prazer. Mas não. Como sair do quarto agora que vem aí as avozinhas da Praça da Alegria? E Oh! Como regozijo eu em ver assim o meu Portugal! Trazem dez filhos, e cada um com doze outros, um recorde total de Silvas e Pereiras, Soraias Vanessas e Cátias Sofias nunca visto, todos a entupirem o meu aparelho com beijos, abraços  e prosperidades a outros tantos Tugas como eu. Tugas viandantes espalhados pelo Mundo. E eu, espalhado na cama, lá adormeço ao som dum artista Flausino que podia ser eu próprio.
  2. Agora já percebi. É mais um fenómeno global. Há dez milhões de cantores em Portugal. Há até um programa em que dão um microfone a cada um. E lá temos 10 milhões de almas a entoar o Tudo o Que eu Te Dou ou o banda sonora do Bodyguard, esses dois supremos exemplos de lamechice musical com que apaixonados bombardeiam vítimas e no interim me arrasam os ouvidos quando estaciono nesses programas. Saberão que eu escrevi uma canção chamada Talvez Foder que foi igual êxito? Mil vezes ouvir 1 milhão de versões desta que uma só mais da outra. Mas não, perante um sempre supremo e sabedor júri, lá vão desfilando crianças vestidas de adultos e graúdos com ar acriançado a debitar perante claques exaltadas, também elas de micro na mão, melodias que apetece assassinar se os mesmos já o não tivessem feito. Em todos os canais afinal isto se repete. Já não é só nos nacionais. Dos Estados Unidos, com a American Idol Mania, aos ingleses, e uma tal Sarah Boyle, que só perdeu porque apareceu um ainda mais desgraçadinho, todos descobriram num repente que afinal querem ser cantores. E não é um tipo qualquer de cantor. É cantor-profissional. Desses que pagam a electricidade e o gás com a arte de cantar, que viajam pelo mundo a semear encanto e a colher experiências. E subitamente entendo: afinal eu, que fujo de cantar, que finjo não cantar, ando à revelia, a contra-corrente, a querer ser um não-cantor, um gajo que fica em casa e tem um emprego sério, que só quer o tal sofá e um comando na mão para ir alternando entre estes brilhantes programas. Quão errado ando eu! Deveria dar graças pela sorte que tenho. Quanto tempo desperdicei eu em Conservatórios e pós-graduações, quando me chegava perfeitamente ter uma epifania e comprar um karaoke nos chineses. Devia era usufruir mais desta coisa fantástica que é a fama e que todos parecem querer até à exaustão: ir a muitas festas, aparecer nas revistas de dentista, falar dos meus divórcios, mostrar tatuagens, a piscina, o jarrão Ming made in Alcochete, e, talvez um dia, um banho de espuma no jacuzzi lá do quintal, com flute de Raposeira e tudo, para aparecer na capa do meu novo trabalho.
  3. Finalmente, Cristiano Ronaldo. Agora em todos os canais do mundo, a abrir todos os noticiários, em todas as línguas, porque mesmo em árabe dá para ver que é dele que falam. Mas espanto dos espantos, não falam do maravilhoso futebol que faz, nem das fintas que deixam atarantados adversários e adeptos. Agora fala-se de dinheiro, de euros, de milhões. De 93 milhões, para ser mais exacto. E do velho desporto, nada, nem um só comentário. Evaporou-se o futebol. Lá foram as tácticas e os segredos, o espírito de equipe e a camisola. Cristiano Ronaldo é um génio. E que viva muitos anos a brindar-nos, mortais, com a sua inventividade em cena. Mas o espectáculo mudou. Agora é um circo onde ganha não quem fizer mais e melhores golos, mas quem fizer mais caras transacções. Feito produto, o nosso Cristiano, passou de melhor a mais caro jogador do mundo. Jornalistas e curiosos vasculham arquivos, procuram provas, sumariam evidências: nunca tanto foi pago por um só jogador. Maravilhado por tamanha proeza, rendo-me. Rendem-se os portugueses. Fazemos contas: ora um café custa 60 cêntimos, portanto 93 milhões de euros dá para tantos cafés. E assim vai o nosso imaginário. Habituados a gerir tostões, já nem sequer nos é permitido sonhar com um golo sem que naturalmente perguntemos: quanto custou?

 

 

Pedro Abrunhosa

Porto, 01 de Julho de 2009

 

publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 16:37
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